
Tem gente que defende a construção da Belo Monte, acham que assim os índios vão para a cidade e que isso será melhor. Há preconceito maior que esse? Se fosse melhor para os ribeirinhos, se eles quisessem mesmo as moradias e os benefícios do governo, não estariam se posicionando contra o projeto. Não apontariam facões para o rosto dos diretores da obra nem diriam: “Vamos matar todos os brancos que construírem essa barragem”. Os moradores locais não declarariam guerra aos responsáveis pela usina se esta não fosse tomar em suas terras, como diz o governo, e se estivessem se sentindo beneficiados (como se perder grande parte da própria cultura fosse benefício em algum lugar), segundo dizem alguns inconsequentes.
Ainda acredito que cada forma de vida, a diversidade dos modos, devem ser preservadas. Se as cidades do interior do Pará são subdesenvolvidas industrialmente mas preservam a floresta, por que motivo industrializar a região? Obviamente o governo precisa repassar recursos e as pessoas devem ter qualidade de vida, mas as fábricas trazem isso?
Além de toda a questão social, que já deveria ser suficiente para inviabilizar a obra, tem se a questão econômica: as muitas incertezas, o alto investimento e a comprovação da pouca capacidade de geração (apenas quarenta por cento), além da dependência sazonal, que comprometerá ainda mais a eficiência da usina, devido ao clima amazônico, instável durante o ano.
Por que não fazer outras usinas menores em todo o país, ou uma do mesmo porto mas em outra região em que não haja predominantemente planícies? Talvez seja uma questão política, estratégica, de visibilidade. Talvez o maior interesse não seja a geração de energia nem o desenvolvimento econômico da região. Tende se ter sempre em mente que entorno de grandes obras giram grandes recursos, e isso significa(de um modo especial, no Brasil) farra! Festa com dinheiro público. Muitos se aproveitando de um pouquinho dessas grandes, incalculáveis e,em até certo ponto, incontroláveis verbas.
Obras assim favorecem interesses particulares, e corruptivos. Tudo bem a cara do PAC.
E o mais grave: o discurso do governo. É como se estivéssemos em uma ditadura: o Brasil precisa crescer, e não há o que se discutir, a obra vai ocorrer, passa-se por cima de tudo e aprovamos, abre-se emendas, burla-se datas, discute-se tudo em 10 minutos... O que eles querem é a obra começando já, não importa como, haja vista que, estamos vivenciando um fim de governo, um ano de eleições e há necessidade de se mostrar trabalho à população.
E o governo não tem direito de coibir direitos –dos índios, da floresta, e também dos contribuintes— ainda mais para alcançar um objetivo meramente eleitoreiro.
Belo Monte é “Um crime contra a humanidade” diz Antonia de Melo, coordenadora do Movimento de Mulheres do Campo e da Cidade do Pará e do Movimento Xingu Vivo para Sempre, ameaçada de morte desde 2004. Apesar de não concordar totalmente com a radical coordenadora – pois ainda prezo pela soberania nacional no que diz respeito à Amazônia— sinto repúdio ao perceber a violência imposta por alguns que vão ser favorecidos, na tentativa de abafar as revoltas. Até assassinatos já ocorreram. E esse é mais um motivo que reafirma o posicionamento contrario à construção da usina, pois prova que existem muitos interesses (ocultos) por trás da obra.
O Brasil é uma democracia, ou seja, um governo para a maioria; mas não é por uma necessidade da maioria que deve-se suprimir os direitos de uma minoria. Como em qualquer democracia, o que majoritariamente se quer, deve ser feito, mas nunca pode-se esquecer dos grupos menores, ainda mais se há outras formas de favorecer a maioria sem cercear a liberdade e os direitos de uma minoria.
Por isso, obras como a Belo Monte, tão grandes e incertas, só deveriam ser efetivadas quando não houvesse mais alternativa, quando todas as outras possibilidades –de geração de energia, no caso— estivessem esgotadas. E o Brasil tem alternativa: hidrelétricas em locais mais estratégicos, hidrelétricas sem barragem, usinas nucleares, eólicas, solares, e tantas outras alternativas menos impactantes, que a ciência desenvolve.
Imagem: Índios Xingu [http://fiveprime.org/hivemind/Tags/amaz%C3%B4nia,xingu]
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